As Chocas Poveiras
Maio 11, 2007O meu pai está sempre a dizer cada pé em seu sapato. O grifo não é meu. Tão-pouco do meu pai, é do Sérgio Godinho, 1988. Contava apenas quatro aninhos, mas estas canções d’Os Amigos de Gaspar são tão intrínsecas como a poesia de igreja que sempre me enfiaram alma acima. Pornografias à parte, que os santos não contam culpas das minhas heresias, das opções que me levarão por certo ao inferno da clemente e benévola Roma. De qualquer das formas, não deveria ter tomado a coisa por sacrifício, que os textos sagrados estão muito bem escritos – dou-lhes isso (e mais, mas essa fractura não cabe nestes ossos).
Traz-me à pena uma camisolinha poveira. Um pedaço de vestuário tão curto que não deve servir a um rato. Cabe-lhe o valor simbólico: queria porque queria uma camisola poveira, como as dos pescadores, as típicas, com aqueles desenhinhos-de-nome-que-agora-não-lembro de incontornável valor histórico para a terrinha natal, a Póvoa de Varzim (não era preciso mencionar: de todas as Póvoas do país, só os nativos da que acrescenta Varzim ao nome são poveiros). Muda-se de frase, que a outra vai longa: pedi à mãe, pedi à avó, fizeram-me a vontade – encontraram uma senhora que romantizei e mitifiquei como muito velhinha, passaram-lhe o pedido e ela fez o especial favor, a troco de um punhado absurdo de notas para uma camisola de pobres; com essa veio a tal, infinitamente mais pequena, que, dizia a minha mãe – pobre mulher, que não conhecia ainda os meus desvios graves à norma –, serviria para empoleirar na minha capa negra, coisa de estudante universitário digna de mostra.
Tanta historieta, chegamos ao que importa. Não possuo qualquer traje académico: não o vejo como um símbolo dos valores académicos, não o suporto enquanto símbolo de praxe (a perpetrada nos dias que correm) e não pretendo confundir-me com a crise da boémia deste novo século, onde a boa cultura e a boa gastronomia já não marcam presença. Respeito quem pense diferente. E fico tão contente como qualquer outro com as alegrias dos amigos (desde que não pise a dignidade do resto ou de parte da comunidade). Posto isto, a gaveta estava a ser o poiso óbvio – e sufocante – da coisa. Entretanto, já a progenitora me reconhecia as vontades; quanto à avó, é com prazer que calo as minhas estórias para ouvir as dela.
Não, afinal só agora chegamos ao que interessa: há muito que me cativou o sorriso da menina Olga, empatia espontânea à primeira das horas – gosto da miúda, pronto!, tem uma maneira especial de embalar o mundo. Andava ela obcecada por emblemas, disto e daquilo, para fazer da tal capa uma árvore de muitos frutos. Percebi que era a hora de pôr o pé no sapato certo. Passei a propriedade da mirrada camisola para a rapariga dos caracóis que se me apresentou primeiramente com Radiohead e Arcade Fire – já andava a prometer há semanas.
Mas eis que surge um problema. Nas horas médias da idade surgiu um grupo de pessoal porreiro, uma OMG que comporta duas outras meninas que escreveram na conversa dos cafés um volume de contos com a camisola, a maior, por personagem principal (chegaram a considerá-la, hereticamente, da Serra da Estrela). E mais uma outra. E outras duas, mais novas às minhas investidas sociais. E mais cinco, com as quais, mais cedo ou mais tarde, estas primeiras terão o cuidado de me enturmar. [Certo?] Fui informado que a dita camisoleta era querida para umas quantas. Pois, que raio! Chamar fofinho àquele objecto é reconhecer valores tradicionais, culturais até, de fases importantes da História portuguesa. Devia ter reconhecido o problema na hora da decisão para a prenda. Resolve-se: mãe, lembras-te daquela camisola poveira formato miniatura? preciso de mais nove. pago eu, pois claro. Não se resolve: querias… aquilo não se vende. a senhora fez por especial favor. cobrou um preço simbólico, por causa da brutalidade do preço da maior.
Insisti. Sem sucesso. Ao que parece, o mito da vetusta senhora é mesmo verdade e os olhos não ficaram mais novos, nem os dedos mais frescos. Mas foi a própria dos caracóis a encontrar solução: doas a camisola às Chocas. Muito bem, é um legado daqui para aí. Os amigos não se traçam a giz nas paredes, são quadros de Dali, de Magritte, de Tanguy, são um poema de Herberto Helder, de Al Berto, de Cesariny: «ama como a estrada começa». Pois bem. Não há prisões, especiais são os actos. Continuo a não ter qualquer pejo em largar a camisola. Fica a Olga com a coisa. Porquê? Porque é a presidente da bela instituição. E assumo a presunção: que A Poveira – dou-lhe aqui o mesmo nome da lancha do meu avô paterno, que não cheguei a conhecer, que poderia muito bem ter sido marco como o outro, lá do lado da mãe (de onde sai a avó acima) – seja coroa da principal representante d’As Chocas, elegida, com certeza, sob o paradigma da democracia.
Fecho com uma vénia do tal Herberto: «Há cidades cor de pérola onde as mulheres
existem velozmente. Onde
às vezes param, e são morosas
por dentro. Há cidades absolutas,
trabalhadas interiormente pelo pensamento
das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas
celestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos
estremecem. Mulheres que imaginam
num supremo silêncio, elevando-se
sobre as pancadas da minha arte interior.»Hugo Torres

Publicado por Salomé Peixoto
